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| Sob Escuta | Deltahead


Com o advento da internet, a consolidação do globalismo e a massificação da informação, por vezes damos connsoco a pensar que já vimos tudo e que já nada nos pode surpreender. É nestas alturas que deus-nosso-senhor nos manda um aviso e faz-nos ver o quanto estamos errados. Foi numa dessas alturas, em que pensava eu que já nada me surpreendia na música, quando qual epifania divina, me foi dado a conhecer num capricho do destino, o álbum de estreia dos suecos Deltahead.

Formalmente, os Deltahead são um duo composto por David Tallroth e Benjamin Quigley; ambos tocam bombo, um toca guitarra (slide, predominantemente), o outro toca contrabaixo e os dois cantam através de uma maquineta caseira carinhosamente apelidada de ASET (Analogue Sound Expanding Trunk), uma espécie de caixa de madeira com três grafonolas lá dentro.

Musicalmente, os Deltahead são um power-duo garageiro, com raízes assentes nos grandes mestres do blues, especialmente dos do delta do Mississipi, que depois transformam em garage-punk viciante e escorreito: um riff certeiro, uma linha de contrabaixo em cheio no meio dos dentes e um refrão repetido até à exaustão, por entre testosterona e suor aos rodos.

Neste momento, dava o meu rim direito para os ver em Portugal num futuro (bem) próximo.

Pedro Soares


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http://www.myspace.com/deltahead

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My Mama Was Too Lazy To Prey

| AO VIVO | Patti Smith @ Coliseu Recreios, Lisboa

Nestes tempos de blogues, livejournals, myspaces, hifives e outros que tais, em que qualquer um de nós se sente com validade suficiente para emitir opiniões sobre os mais variados temas, diz-se muita coisa pela internet. E uma das coisas que li na net sobre Patti Smith foi que a senhora já estava velha e que os seus concertos já não são o que eram. E eu, pateta como sou, acreditei. Felizmente, que o concerto do passado dia 29 me fez ver com os meus próprios olhos como estava enganado.

Patti Smith é uma poetisa punk. Sabemo-lo não quando ela refere Fernando Pessoa, não quando ela grita palavras de ordem, mas sim quando ela cita Rimbaud e depois cospe para o chão. Isso sim, é punk! E Patti Smith é a madrinha do punk. E não precisa de roupa rasgada, penteados coloridos, ou outros artifícios superficiais.

Com um Coliseu praticamente cheio, Patti Smith (felizmente) não se limitou a percorrer o seu último disco, o (fraquinho) Twelve, álbum quase exclusivamente dedicado a versões (com um bocejante Smells Like Teen Spirits, mas com um vibrante Are You Experienced, com direito a Voodoo Child e tudo). Começou logo com Redondo Beach, tocou Because The Night, People Have Power, voltou para Gloria e, claro, terminou com Rock'n'Roll Nigger. Nessa altura, já as inesperadas cadeiras do Coliseu estavam há muito abandonadas, com o público a amontoar-se em frente ao palco, pulando ao ritmo da cadância de palavras de Patti Smith.

Já não estamos nos anos 70, no tempo da contra-cultura e da guerra do Vietname, mas mesmo assim ainda nos arrepiamos com as palavras de ordem da senhora Smith: this is the only weapon we need, grita apontando para a guitarra e referindo-se ao rock'n'roll. Não há o Vietname, mas há o Iraque e o Afeganistão, há os preços galopantes do petróleo e há a corrupção administrativa das grandes empresas. Talvez por isso somos levados a acreditar naquela activista hippie que passeia pelo palco e pelo meio do público, sem seguranças nem poses ensaidas, como naquele mítico concerto dos Doors.

É, sem dúvida, o concerto do(s últimos) ano(s). E só não foi perfeito porque Patti Smith se esqueceu da letra de Perfect Day, no momento em que a ia dedicar ao público português. Era talvez a isto que se referiam os tais opinion-makers, quando escreviam que a idade não perdoa.



Pedro Soares

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http://www.myspace.com/pattismith

| DISCOS | Black Lips - Good Bad Not Evil


Black Lips: Good Bad Not Evil
(Vice, 2007)



Desde que os Strokes lançaram Is This It que se diz que o rock anda na moda. De facto, desde os anos 70 que não se falava tanto de rock'n'roll. Mas agora pergunto eu: desde que apareceram os Strokes, quantas bandas rock conseguimos distinguir de todas as outras? Assim de repente, penso que as respostas contam-se pelos dedos das mãos. Todas se vestem de igual, todas soam igual... E sim, os Arctic Monkeys também.
Por isso, ainda bem que existem os Black Lips, quatro miúdos norte-americanos que tocam rock'n'roll como antigamente. Os Black Lips não se vestem consoante a moda, não citam as bandas que deviam citar (aliás, todos eles são fãs de hip-hop; os dentes de ouro não são por acaso), nem tão-pouco aparecem nos sítios que deviam aparecer... Com eles, o rock ainda tem tudo a ver com ser livre e festivo (por isso, não há concerto que não termine em lago parecido com um motim); e com eles, o tríptico sexo, drogas e rock'n'roll (com ênfase na segunda e terceira parte da equação) continua a fazer sentido.

Ao terceiro disco de originais, os Black Lips abandonaram o lo-fi. Perdeu-se a visceridade, ganhou-se em musicalidade. Bad Good Not Evil é um tratado protátil de psicadelismo punk garageiro urgente e doentio, com a mesma proporção de irresponsabilidade e desleixo que a ingenuidade da idade comporta. Por isso, urge ouvir estes gaiatos antes que eles cresçam, ganhem maturidade e partam para outra.

Por isso, enquanto não chega o dia 10 de Novembro, o dia em que eles voltam ao nosso país para tocar no Barreiro Rocks, vamo-nos deleitando com Bad Good Not Evil, rock'n'roll à bruta, para ouvir e jogar-nos contra a parede.

Pedro Soares

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«Cold Hands»

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